sábado, 5 de abril de 2008

Olhar 43


Juro que agora eu quero ver sair dessa.

Eu tenho um talento incrível para entrar em encrencas, acho que esse talento só é menor que um outro meu: sair de encrencas.

É sério. Faço parte das minorias.

Teoricamente, não seria uma boa época para falar sobre isso, mas daí eu fiquei pensando e cheguei a conclusão de que a melhor época para falar sobre alguma coisa é quando se trata de uma realidade distante. Apaixonados devem falar de dinheiro e azarados sobre a sorte. Explico. O apaixonado, devidamente apaixonado, será rápido e objetivo para tratar de dinheiro, não supervalorizará o vil metal: Serve para pagar as contas. O que mais você quer saber? Para logo em seguida voltar a falar do objeto amado durante horas... Um desespero para qualquer ouvinte. E um azarado sobre a sorte? Imagine se ele vai perder tempo contanto sobre coisas absurdas e mágicas, se ele tem inúmeras histórias REAIS e DOLOROSAS de como a vida é cruel...

Explicado o meu ponto de vista, posso desabafar para o nada...

Descobri que eu sou mortal.

Eu já estava desconfiando... primeiro surgiram algumas rugas, depois cabelos brancos, um número cada vez maior de pessoas começou a me tratar por senhora (sempre tenho um acesso de riso GENTE, EU JÁ URINEI NA CAMA. PELOAMORDEDEUS SENHORA NÃO), depois começaram as consultas médicas, e o pior... Eu não conseguia mais ficar 72 horas acordada.

Foi um choque. Eu tinha certeza que eu era imortal. Tá certo que um dia eu não iria mais acordar. Isso seria a morte.

Tudo bem. Todo mundo morre.

Eu nunca compreendi que era um processo. Começa com você tossindo lamentavelmente na frente daquele cara por causa do cigarro. Dentes amarelados. Cabelo sem brilho. Celulite. Vc começa a ver o que está bebendo, porque afinal de contas você terá que trabalhar amanhã...

Preciso fazer ginástica. Preciso fazer ginástica. Culpa do cigarro. Culpa do álcool.

Uma ova. Culpa da idade mesmo.

O crescimento é um processo mental e físico, o envelhecimento não. É só físico.

Tenho as mesmas vontades, desejos, acho um saco ter que dormir, fujo das responsabilidades, e entro em pânico só de pensar que eu vou ter que usar um daqueles malditos macacões de ginástica!!

Onde eu estava mesmo?

Minorias... pois é. Eu não sou minoria. Eu dei um pouco de sorte em alguns casos, forçei a sorte em outros, mas no final eu vou morrer e vou passar por algum processo humilhante e degradante como todo mundo. Isso é fato.

Mas e daí?

No final, descobri um milhão de coisas novas:

A humilhação física não é nada, comparada a nulidade mental que as pessoas exibem sem o menor pudor.

Não tente esconder os seus defeitos, mais cedo ou mais tarde eles vão aparecer.

Sempre achei que o meu pior inimigo estaria no lugar mais improvável, na verdade, foi o meu melhor amigo que encontrei por lá.

Você nasceu sozinho. Conforme-se, e tenha a dignidade de evitar os placebos existenciais. A vida é sua, a morte também. Aproveite de ambas. O dedo amputado só dói no enfermo, o resto é maquiagem.

Não pense que você não vai pagar a conta dos teus pecados, chega a ser hilário a forma como as coisas acontecem. Não acho que estou pagando alguma coisa, mas passar por uma situação aos 15 e depois aos 34, do outro lado, é no mínimo engraçado. Embora, bem da verdade, eu precise confessar que não melhorei em nada...

Mande às favas todos que te incomodam.

Porque afinal de contas, não importa se a mula é manca, eu quero é roseta.

5 comentários:

Unknown disse...

Tha, devido a perdas sofridas e descobertas vividas há muito tempo tomei consciência da minha mortalidade. Não é fácil, na verdade é FODA com todas as letras em maiúsculo mesmo. Só que a gente nasceu pra isso mesmo, nascemos sozinhos, perdidos e nem um mapa dão pra gente.
Mas existe uma coisa que nos faz pensar que essa mortalidade é boa, afinal com as rugas, os cabelos brancos vem o conhecimento de que somos donos de nossas vidas, de nossos desejos, que podemos ter atitudes mais irresponsáveis com menores conseqüências do que quando éramos crianças ou adolescentes. Que a mortalidade nada mais é do que o conhecimento pleno da Vida. Porque afinal de contas não quero saber se o pato é macho ou fêmea, eu quero é ovo!

Anônimo disse...

Omelete para todos...

William Hinestrosa disse...

Mas o bom, às vezes, é não sentir o freio, e o melhor, sempre, é descobrir que tudo vai terminar num mergulho, de cabeça, barriga, ou bunda... se bem que de barriga dó muito.

Anônimo disse...

ahahahaha
Eu vivo caindo de bunda, juro que dói bastante...

carol marçal disse...

hahahahaha
Tha!!!
adorei seu post, muito sincero, engraçado... afinal falar de morte, só rindo mesmo... e as desgraças? adianta chorar???
não mesmo...
e tudo isso que vc dizé realmente real... decsobri há pouquíssimo tempo, ma legião de fios brancos escondidos na cabeça... to puuuuta! mas fazer o q? vou me matar???
não mesmo...
agora serei mãe... eu, que com toda aquela energia de antes e sentimentos de imortalidade, passei a sentir medo medo de andar sozinha até esquina se já tiver passado das 22h....
foda!
sou mais responsável que antes... mas nem me dei conta!
ninguém havia me ensinado que seria assim, desse jeito, uma paulada!
sim, nossa vida muda muito, as vzs tão rapidamente que chega a ser assustador! parece que alguém lá em cima pega no seu braço, puxa suas orelhas, te chacoalha e diz: filhinha, não vai crescer????acha que vai durar pra sempre é?
booom!
é assim... sentimos a mortalidade na pele e nos damos conta de que precisamos tomar conta de nossas vidas... o que não quer dizer continuar se jogando de cabeça, ser intenso e por vzs, se sentir um tiquinho imortal...
deixar isso de lado?
não mesmo...nunca!
senão... prefiro passar dessa pra melhor... rsrsrsrsrs

bjo Tha!!!!