
Foi a primeira vez que eu realmente enxerguei a cidade. Eu tenho muito disto, ver e não enxergar, só para depois ficar me cobrando como se fosse a única neste planeta a fazer isto. Ver e não enxergar.
Na primeira noite eu olhei pela janela e achei tudo lindo, por do sol, prédios, aviões e pássaros. Tomei um susto quando surgiram milhares de luzinhas, me dei conta de que em cada uma delas havia uma, duas ou mais pessoas vivendo. É muita gente, muita história, muito erro, muita dor. Na hora tudo isto me oprimiu e eu fiquei com medo e um pouco cansada de ter que respirar, comer, trabalhar, ser feliz, espirituosa, indispensável e todas estas babaquices que só servem para te tornar cada vez mais medíocre. Percebi que nunca tinha visto de fato o lugar onde eu moro, nunca tinha enxergado a grande privada que é esta cidade.
Todo ano eu ameaço ir para a praia e todo ano eu acabo me amarrando a um milhão de compromissos por causa de grana, que no final eu acabo gastando por morar aqui.
Eu poderia começar o ano com um post super místico por causa da minha passagem de ano transcendental, branca e em paz, mas foi esta opressão que se fez urgente. O mais triste é a falta de tristeza. Porque eu não estou triste, só estou digerindo a informação, embora desconfie de que não vou gostar da conclusão final.
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