No baralho tem a turma de paus, copas, ouros e espadas. Sempre achei a galera de espadas um pessoal calado e encrenqueiro que me fazem pensar em marinheiros ou espartanos. O pessoal de ouros gosta de acumular mais do que deveria, e a imagem que eles produzem é bem próxima aos anões, ou mesmo os porcos do livro de Orwell, exploram para acumular capital.
O pessoal de copas é o mais fútil, recordam Oxum e algumas meninas choronas, mas o mais triste de todos é o pessoal de paus, parecem peões de fazenda, muito trabalho e pouco dinheiro.
E o curinga.
Detestava o curinga. Canastra vale menos com ele, não harmoniza com as outras cartas no jogo, deixava tudo feio e sujo.
Mas eu também não gostaria de participar dos outros grupos... Talvez espadas, eu sempre tive mais facilidade em fazer jogo com espadas. Cartas de copas também são constantes, talvez eu fosse de alguns destes dois grupos, porque paus e ouros apodrecem na minha mão, mas não completam jogo. Parece maldição.
Passei um tempão tentando descobrir qual dos dois grupos eu pertencia. Conclui que eu tinha muita coisa em comum com os quatro grupos e não com apenas dois. E dai? Todo mundo tem relação com estes quatro grupos e com outros milhares de grupos espalhados pelo mundo. Isto não vale nada.
Finalmente eu assumi que, no final das contas, eu sou o coringa. Não gostei muito, primeiro porque ele emporcalha tudo, depois porque é meio senso comum definir-se como diferente, e senso comum é coisa do pessoal de copas. Pensamento circular.
Não consigo ficar muito tempo em um lugar, não consigo “deixar as coisas como são”, não consigo fingir que não vi, só porque é mais confortável. Ou seja, eu emporcalho tudo.
Eu só fiz as pazes comigo mesmo quando eu percebi que na verdade, somos todos curingas.
Todo mundo tem alguma relação com os quatro naipes e vendo assim, não tem valor mesmo, as coisas só se ajeitam quando você percebe que todo mundo, na verdade, se esforça muito para ser de qualquer um dos quatro grupos, não importa qual.
Ninguém gosta de emporcalhar as coisas, por mais que seja da sua natureza.
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