Ou se tem chuva ou não se tem sol,ou se tem sol ou não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo dinheiro e não compro doce,
ou compro doce e não guardo dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecilia Meireles
Eu nunca gostei muito de poesia e sempre culpei a minha educação.
Simples assim: se eu gosto de ler foi porque aprendi, imagino que se algum adulto tivesse gastado algum tempo para me mostrar poesia, talvez eu não sentisse sono só de ouvir sobre o assunto.
Alguém como um professor de português.
Porque do gosto de livros o mérito é só da minha mãe.
É verdade que gosto também de algumas de Camões, que conheci por causa do vestibular.
Tá bom...
Tem Mario Quintana, Tem o Fernando Pessoa, Tem o Vinicius de Morais, Tem o (genial) Paulo Leminski, Tem Carlos Drummond de Andrade.
Tá, tem bastante gente e tem uma pedra no caminho, mas não se trata disto...ou daquilo.
Na minha época de escola, nas aulas de português/redação (ou o nome que davam dependendo do ano ou escola), começávamos a aula lendo um texto (que depois fui estudar eram carregados de preconceito) e o professor (a) da vez era encarregado de tirar todo o interesse que ele poderia ter para só depois sermos obrigados a decorar alguma regra sem sentido.
Os textos nunca eram assinados, o que eu achava estranho... Trabalho difícil este, organizar um livro de gramática, escrever os textos para crianças, etc... Ficava com preguiça só de imaginar. Preguiça e pena, porque imaginava que os textos asssinados eram de pessoas arrogantes que todo mundo gostava e que nós seríamos obrigados a engolir. Sempre fui contra as unanimidades e a favor dos oprimidos. Viva o escritor anonimo dos livros escolares! Trabalho duro voltado para manter o interesse de crianças, estas criaturas desagradáveis que nunca entendem nada.
Bom, esta poesia da Cecilia Meireles foi apresentada numa dia chuvoso, por volta das 7:45 da manhã, num daqueles dias que você quer morrer. Não sei se eu estava na 3ª ou 4ª série, mas me lembro que estava de saco cheio de tudo, hormônios, pais, frustração e para piorar estava molhada e com a saia do uniforme, porque a minha calça estava rasgada.
Eu gostava da parte da leitura do texto, antes da professora estragar tudo e me entupir de regras sem sentido, eram alguns minutos de diversão.
Quando ela mandou abrir a página e eu vi que era poesia, quase chorei. Saco! Um dia chato pra cacete pela frente, naquela escola que eu detestava e me detestava, pais tiranos, molhada, inadequada, ainda ia ter que ler poesia? Assinada ainda!! Os céus conspiravam contra!!! Só me restava aguentar tudo silenciosamente.
Antes da professora começar a ler com a classe inteira, eu dei uma passada rápida com o olho e achei uma grande besteira. Começamos a ler todos juntos e o texto criou sentido e cresceu.
Quase chorei de emoção. Acho que havia uma certa ligação com o meu estado de espirito daquele momento e também com a minha eterna indecisão que me angustia desde o berço.
O fato é que eu fui levada para uma outra realidade, a voz da professora e da classe se tornaram um ruído abafado, eu me poupei da parte decoreba da aula e fiquei pensando sobre poesia. Naquele momento eu pensei que poesia era coisa de adulto, por isso eu não entendia e não deveria ser uma coisa tão ruim, só precisava de orientação, como tinha acontecido naquele momento. Talvez, eu tivesse um ano inteiro só de poesia.
Tô esperando até hoje.
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